Campanha da Fraternidade 2018 é lançada com o tema: Fraternidade e Superação da Violência

Diocese
16·Fevereiro·2018

 

No sábado, dia 17, fiéis de toda a diocese de Barra do Piraí - Volta Redonda participarão do lançamento em conjunto por todas dioceses e arquidioceses do estado do Rio da Campanha da Fraternidade (CF) 2018. Este ano, a Campanha trata da “Fraternidade e a superação da violência”. Será a partir das 8h, na Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde haverá missa, apresentações culturais e reflexivas. No domingo, haverá missas nas regiões pastorais da diocese. Dom Francisco Biasin, presidirá a missa de Volta Redonda, na igreja Nossa Senhora da Conceição no Conforto, a partir das 9h.

A Campanha já havido sido lançada na região na quarta-feira, dia 14. A abertura foi realizada na cúria diocesana, em Volta Redonda e contou com a presença do bispo diocesano, dom Francisco Biasin, padre Juarez Sampaio, coordenador de Pastoral, padre Nilson José dos Santos, coordenador diocesano da Pastoral Carcerária e responsável pelo movimento Resgate da Paz, a professora da UFF, Áurea Dias e o presidente da OAB VR - Alex Martins e padre Gildo Nogueira Gomes, integrante da equipe de Dimensão sócio-transformadora da diocese. 

“Tem uma força muito presente e poderosa que está no coração, na vida e no sonho de cada pessoa, famílias e povos, que é um anseio pela justiça e pela paz. E que emerge toda vez que o povo tem possibilidade de se expressar, toda vez que o povo até um tanto oprimido ou discriminado entra na dança da vida... Eu creio que nós devemos alavancar a nossa sociedade a partir desta força que não é oculta, muitas vezes se expressa pouco, mas está muito presente no dia a dia, a cada hora de discussão do nosso país e da nossa sociedade. Faço votos para que essa campanha da fraternidade tenha um amplo alcance e que não termine na Sexta-feira Santa ou na Páscoa, mas que dure o ano todo e possa semear mecanismos de restauração que durarão para sempre”, disse dom Francisco.

 

Dados

 

Na CF 2018, a Igreja no Brasil apresenta às comunidades uma realidade que pede atenção, mudança e conversão. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apesar de possuir menos de 3% da população do planeta, o Brasil corresponde por quase 13% dos assassinatos. A pesquisa aponta também que em 2014, o país chegou ao topo do ranking, com o número absoluto de homicídios. Foram no total 59.627 mortes. 

“É para uma verdadeira conversão social que a Campanha da Fraternidade nos convida. Para que nós todos possamos pensar numa cultura nova, numa cultura de paz. Olhamos para o nosso Brasil, nessa crise financeira e nessa crise política, em que os direitos sociais são simplesmente deixados de lado, já começando pelo congelamento das políticas públicas por 20 anos. perdas para a educação, saúde e a segurança pública que está mendigando...a segurança pública é direito constitucional. A gente não pode superar a questão da violência presente pensando belicamente, como alguns candidatos prenunciam para resolver a questão da segurança pública no Brasil”, disse padre Juarez.

No estado do Rio, dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) registraram, em 2017, 6.731 assassinatos no estado do Rio, incluindo: homicídio doloso, por confronto com a polícia, latrocínio (roubo seguido de morte) e lesão corporal seguida de morte. No interior, ainda segundo os dados do ISP, em 2017 foram registradas 1.549 mortes violentas.

 

Violência a partir da não garantia dos direitos

 

Para o presidente a da OAB – Volta Redonda, Alex Martins, a principal violência é a chamada violência legalista, instituída pelo Estado. “Essa violência retira de nós, trabalhadores, direitos constituídos e fundamentais. Levando à desumanização e precarização das condições de trabalho. A sociedade civil e as instituições precisam criar um sistema de resistência e autodefesa. Por meio do diálogo é que nós vamos construir a cultura da paz. E ela precisa ser constituída não só na sociedade em geral, mas na sociedade acadêmica, nos cursos de Direito. Resolver os problemas da sociedade pelo meio do processo é tornar desumano a resolução dos conflitos”, destacou reforçando os dados apresentados que apontam que 40% dos presos são “provisórios”, sem condenação judicial, o que evidencia a violência causada por parte da morosidade do judiciário.

A violência contra a mulher e a quebra dos direitos também foi um tema da mesa abordado pela professora Áurea Dias, sobre a manifestação da violência de forma muito particular e específica para alguns sujeitos sociais, em especial as mulheres e particularmente as mulheres negras. “A gente sabe que na nossa sociedade a violência se manifesta não só na criminalidade e na violência urbana mas direcionada especificamente para alguns sujeitos: jovens, pessoas com deficiência, idosos, mulheres e negros. São manifestações que não são ocasionais ou conjunturais, são manifestações enraizadas na nossa cultura e nas práticas sociais do nosso país. Essa violência tem uma relação íntima com a desigualdade social e que a gente naturaliza como algo normal, algo conhecido”, destacou.    

De acordo com Áurea, a violência pode ser observada na desigualdade nos postos de trabalho, salários; na violência contra a mulher, violência doméstica, física, psicológica, simbólica, sexual, patrimonial, social – que se expressa em discriminações e a violência obstétrica. “Gostaria de destacar essa violência. Uma pesquisa da Fiocruz mostra que as mulheres negras são majoritariamente mais atingidas por essa violência. Um tratamento humilhante e desrespeitoso à mulher na hora do parto. Com exames nem sempre necessários e constrangedores, xingamentos e agressividade, porque considera-se que a mulher negra, pela sua história de escravidão, suporta mais dor. A pesquisa mostra por exemplo o quanto é usado menos anestésico para mulheres negras”, destacou.

 

A ação da Igreja

 

Uma das ações de busca pela superação da violência já acontece nos presídios, que são acompanhados por equipes da Pastoral Carcerária. Durante sua fala, o coordenador da pastoral, padre Nilson José dos Santos, explicou que há um esforço para a humanização dentro desses espaços. Segundo ele, a pastoral carcerária tem o objetivo de ser presença amiga junto aos presos e de trazer um pouco mais de conforto. Hoje a pastoral exerce também um papel de apoio ao Estado. São entregues kits de higiene pessoal, cobertores, lençóis, medicamentos por conta da infestação de sarna desde a metade do ano passado. Ainda segundo o padre, a pastoral também se revela como uma presença questionadora. “Nós estamos ali desejando questionar como se desenvolve essa ação para reabilitar os presos. Dentro do que desejamos, seria uma ação restaurativa e não simplesmente punitiva. Hoje nós não temos nenhuma política pública, até mesmo dentro das nossas práticas pastorais para acolher o preso que sai da cadeia. Nós estamos vivendo uma situação de risco devido ao número de pessoas que ali estão. Dados da última visita feita na sexta-feira (9/02) revelam que tínhamos 303 presos em Volta Redonda. Em Resende, 390. Então estamos indo para superlotação em situações muito precárias. No Degase, a capacidade é para 90 jovens e temos hoje 180 internos. Nós precisamos ter uma presença atenta e profética para denunciar esses abusos. Outra situação é que na cadeia pública de Resende, a alimentação está chegando de Japeri, chega a Volta Redonda e é levada para Resende. E há denúncias de que as refeições chegam ao destino em estado ruim, podre mesmo”, disse.

Outra ação apontada durante a coletiva foi sobre o desenvolvimento de um projeto realizado em conjunto pelas pastorais sociais para atuarem efetivamente contra os problemas causados pelas drogas, responsáveis por grande parte da violência na região, como destacou padre Gildo Nogueira Gomes. “Esse modelo do narcotráfico que domina o país foi abordado no fórum das pastorais sociais que realizamos em 2014 e foi um dos grandes problemas apresentados. Em toda a parte da nossa diocese existe esse grande problema e em demais encontros voltamos a refletir sobre o tema. Desde então, iniciamos a construção de um projeto integrado de atenção e prevenção à dependência química”, disse o padre contando que o projeto está na fase de visitação de casas de recuperação, atenção e prevenção à dependência química e promovendo encontros sobre prevenção do uso de drogas a partir de atividades educativas, esportivas e culturais. “São diversas experiências em que o poder público deve estar envolvido no sentido de criar oportunidades de esporte, lazer, cultura, oferecendo esses serviços ao conjunto de toda população adolescente e jovem”, finalizou.