Igreja e o protagonismo político e social

Palavra do bispo
08·Outubro·2018

No mês de setembro participei de três importantes momentos de reflexão, e por que não dizer, fortalecimento da democracia. O primeiro deles foi o Consep (Conselho Episcopal Pastoral) da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) onde se reúnem os bispos presidentes das 12 Comissões com os bispos da Presidência. Fomos representando o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso. Nessa reunião tratamos dos próximos dois temas da Campanha da Fraternidade. Em 2019 ?Fraternidade e Políticas Públicas?, cujos texto-base e música foram apresentados na ocasião e a CF 2020 ?Fraternidade e vida: dom e compromisso?, onde foram apresentados os primeiros elementos para a elaboração do texto base. Em ambas as campanhas é muito forte a conscientização do nosso povo em primeiro lugar para que assuma o seu protagonismo, pelo exercício da cidadania, especificadamente no avanço de políticas públicas para mudar o cenário de desmonte do nosso país e depois, e bem de maneira particular, para avivar o nosso compromisso com a vida das pessoas. Isso é ser Igreja!

Após a nossa participação, fomos convidados a conceder uma entrevista à imprensa da CNBB sobre o papel do cristão e as diferenças entre evangélicos e católicos no envolvimento na política que pode ser lida na íntegra no portal da diocese. Divido aqui as pontuações que fizemos sobre o nosso povo.

Em primeiro lugar é sempre bom lembrar que vivemos num estado laico, o que é um grande valor na concepção da participação política dos cristãos no exercício da cidadania. É de se perguntar sempre como um cristão se posiciona no exercício do cargo político para o qual foi eleito: certamente não deve implementar programas de governo atrelando-os à sua tradição religiosa, nem deve ter como critério de governança o seu credo.  Na igreja Católica se incentivam leigos e leigas coerentes e preparados a assumirem cargos políticos, pois é missão deles se engajarem na transformação das realidades terrestres.

É de se notar que estão aumentando nas dioceses do Brasil as escolas de fé e política e que apontar candidatos para cargos públicos entra cada vez mais na pauta. Tais grupos também refletem sobre a ética e o combate à corrupção no Brasil. Esse também foi o tema do encontro promovido pela Transparência Internacional, no lançamento da campanha ?Unidos Contra a Corrupção?, no qual participei no dia 20 de setembro no ISER (Instituto de Estudos da Religião), no Rio de Janeiro. Nos juntamos em uma verdadeira roda de conversa com representantes de outras Igrejas e Religiões para apoiar essa campanha que apresentou cerca de 70 propostas de combate à corrupção em pauta prioritária do Congresso em 2019.

No mesmo dia, à noite, fizemos parte de um grupo de bispos convidados para participar do debate promovido com os candidatos à Presidência da República, em Aparecida. O debate foi dividido em cinco blocos e o último foi dedicado a perguntas feitas pelos bispos. Coube a mim fazer a última pergunta direcionada a um candidato sobre polarização e governabilidade, levando em consideração que em 2016 os bispos do Conselho Permanente da CNBB já falavam sobre o assunto. Nesse contexto nós temos a firme convicção que o diálogo constante é imprescindível para a condução do país. Por isso nossa pergunta foi: ?Como será no seu governo o diálogo com os outros poderes da república e com os movimentos sociais??  Trago esses questionamentos sobre as polarizações também a você, leitor. O seu discurso tem produzido ódio e intolerância entre amigos, família, colegas de trabalho e na comunidade a que pertence? Mesmo afirmando a sua opinião, você está aberto ao diálogo? O  projeto político, de vida e educação que você tem apoiado, dialoga com os pobres, os últimos e é a favor da vida em toda as suas expressões? Você tem baseado o seu voto e participação na sociedade por um projeto que beneficie o coletivo ou apenas para benefício próprio? Deixo essas perguntas para que você possa responder à sua própria consciência e que juntos possamos trabalhar pela cidadania e democracia em favor do bem comum.