Dia da Consciência Negra é lembrada com homenagens em Volta Redonda

Diocese
29·Novembro·2018
Na noite do dia 28 de novembro, membros da Pastoral Afro da diocese de Barra do Piraí - Volta Redonda, ao lado do bispo diocesano, dom Francisco Biasin, participaram da sessão solene na Câmara Municipal de Volta Redonda, promovida pelo Conselho Municipal da Igualdade Racial. Na ocasião o bispo diocesano, dom Francisco Biasin, recebeu a Medalha Zumbi dos Palmares, maior comenda da noite. A justificativa foi de valorização do povo negro dentro das comunidades católicas e na cidade e a expressão do diálogo contra o preconceito, sobretudo, com as religiões de matriz africana. 
Além de dom Francisco, foram homenageados: Dalma de Lima Valentim; Ana Carolina de Oliveira; Jaciron Silva Pereira; Idinete de Assis Machado; Maria de Lourdes Gonçalves Barbosa, a dona Zizinha.
A apresentação da cultura afro por meio de músicas e danças ficou por conta do grupo Iamidunda, do Memorial Zumbi. A coordenadora do Conselho da Igualdade Racial e membro da Pastoral Afro de Volta Redonda, Adelaide Afonso, disse que o Conselho indicou pessoas que trabalham para combater o racismo.
- Estas pessoas homenageadas lutam para combater a discriminação racial e todos os tipos de segregação da nossa cidade, mas sabemos que Volta Redonda ainda tem muita gente a ser agraciada - explicou Adelaide, que em seu discurso, ao lado dela e do bispo diocesano compuseram a mesa os vereadores Rosana Bergone, Rodrigo Furtado, Jari Simão e Fernando Martins, o coordenador do Memorial Zumbi, Sid Soares e a ex-deputada estadual, Inês Pandeló.

Leia na íntegra o discurso de dom Francisco Biasin:

Agradeço a(os) autor(es) desta comenda por ter escolhido entre os vários nomes a minha pessoa. É uma comenda que muito me honra.
Não nego que inicialmente fiquei surpreso e um tanto incomodado. Logo pensei nas minhas origens e na função que exerço na Igreja, a instituição que represento, e me perguntei: "Quem é que teve a fantasia e a ousadia de apresentar um italiano, naturalmente de cor branca, bispo da Igreja Católica para ser reconhecido como alguém que se identifica com a raça negra, ou melhor, que assume a alma da consciência negra, na valorização da diversidade racial tão presente no nosso Brasil?"
Enxerguei em tudo isso uma sadia provocação para assumir um compromisso ainda maior e público com o povo negro que me encantou desde criança e adolescente a tal ponto de sonhar de ser missionário na África. Entendo, contudo, que um sonho de criança, ao amadurecer da vida, toma conotações concretas e é chamado a tornar-se realidade.
A minha aterrissagem em terras brasileiras aconteceu na baixada fluminense, 46 anos atrás. Um povo todo ele sofrido e resistente, mas os mais sofridos, entendi logo, eram os negros e me propus imediatamente de realizar uma presença e um trabalho de integração entre todos os marginalizados, entre os excluídos, com as minorias (que na realidade são a verdadeira maioria), inicialmente não entendia o porquê, agia quase que por intuição, por sensibilidade. Quem me esclareceu foi um grande homem e bispo, dom Helder Câmara, quando, na missa dos quilombos, ao dirigir-se à Mariama exclamava: "Problema do negro acaba se ligando com todos os grandes problemas humanos, com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões!". 
Lembro que entre os amigos e colaboradores, não sem algumas dificuldades iniciais, tive a graça de crescer junto com um negro de Gramacho em D. Caxias, José Zumba Clemente da Silva; ele me ajudou a crescer em consciência a partir do seu lugar social e da sua cultura negra. E, a partir dali, fui ampliando horizontes que, graças a Deus estão se alargando cada vez mais ainda hoje. Descobri João Cândido!!!
Depois fui chamado a Pesqueira (PE). Lá tem a realidade indígena que precisaria ser tratada como um capítulo a parte, mas não desligada nunca dos outros parceiros entre os quais os negros, as mulheres e outras minorias. Cultivo até hoje amizades sinceras e construtivas do povo Xucuru.

E agora estou aqui nesta nossa região que, por fazer parte do Vale do Paraíba, o vale do café, tem uma presença marcadamente negra de exploração, de trabalho escravo, de grande resistência, de resgate da dignidade humana e de grandeza cultural ímpar.

Um pouco de história: "Realizada a Abolição da Escravatura (1888), inicia-se um longo caminho marcado por dificuldades, lutas e enfrentamentos dos afrodescendentes, quanto ao preconceito racial, pois a liberdade conquistada, depois de séculos de escravidão, não veio acompanhada do direito à cidadania plena, pois não houve um projeto de inclusão social que contemplasse a imensa população de libertos que encontrou apenas a "porta da rua".
Não ocorreu, infelizmente, por parte das autoridades, uma preocupação quanto a fixar as comunidades negras na terra e garantir os espaços nos quais já viviam. Após a assinatura da Lei Áurea, surgiu um movimento, que exigia indenização, por parte do governo, aos senhores que haviam perdido seus escravos. Na ocasião, o estadista Rui Barbosa (1849-1923) se pronunciou dizendo: "Se alguém deve ser indenizado, indenizem os escravos!". A sociedade tem uma dívida social impagável em relação aos povos originários e aos afrodescendentes escravizados.
O racismo, que se constitui numa chaga presente na sociedade brasileira, apresenta-se, na maioria das vezes, maquilado por um discurso construído sob a égide de uma democracia racial, que não corresponde à realidade social do negro brasileiro. Basta que analisemos os dados estatísticos levantados por órgãos sérios, como o IBGE, quanto à presença do negro no mercado de trabalho, na ocupação de espaços na vida pública e na política, para que tenhamos consciência do longo caminho que vem sendo percorrido pelos afrodescendentes, para que possam se tornar atores e protagonistas no processo de construção de uma sociedade mais fraterna e com menos desigualdades.
Não deixemos apagar da memória a luta de Zumbi e de tantos outros brasileiros de diversas etnias que foram também perseguidos e até perderam suas vidas na luta em prol de justiça social, desafiando interesses e privilégios de casta perpetuados desde o inicio do processo de colonização do Brasil(1).  
Portanto não basta pedir perdão pelos erros do passado, nem para a Igreja! É necessário acertar os passos hoje, na defesa da dignidade de todas as minorias, na implantação de políticas públicas que olhem e privilegiem os pobres, na preservação da liberdade de expressão cultural e religiosa num país como o nosso onde a pluralidade, a inclusão e a tolerância são a marca registrada da formação do seu povo.
Meus caros amigos e amigas, termino afirmando que aprendi com vocês que o cristianismo é plural antes de ser dogmático. Redescobri com vocês a novidade e a beleza do evangelho de Jesus e defendo a teoria que para ser cristão não se deve perder a própria cultura, pelo contrário: o índio xucuru pode ser cristão e índio xucuru! O negro bantú pode ser cristão e bantú! E quem não está preparado ou escolhe outro caminho deve ser respeitado na sua liberdade religiosa.
Aprendi que a sabedoria de Deus do Deus de todos os nomes está presente em cada cultura e tem a sua riqueza própria!
Trago aqui três provérbios tirados da cultura de vários povos africanos:
"O eco da primeira palavra fica sempre no coração."
"Trate bem a Terra. Ela não foi doada a você por seus pais. Ela foi emprestada a você por seus filhos."
"Quando não existe inimigo no interior, o inimigo no exterior não pode te machucar."
E me comprometo, publicamente diante dos meus irmãos e irmãs negros a somar as minhas melhores energias e o meu amor ao esforço de quantos querem viver o quilombo da paz e da justiça para chegarmos a viver numa terra sem males!
Axé! 

  (1)Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite: A escravidão no Brasil: do ciclo do café à abolição