EUCARISTIA - SACRIFÍCIO DA NOVA ALIANÇA

Palavra do bispo
08·Novembro·2019


A Igreja ao longo dos séculos sempre procurou esclarecer e corrigir abusos e incompreensões que surgiram sobre o sacramento da Eucaristia. Com o intuito de reafirmar o que o Magistério e a Tradição da Igreja sempre nos explicitaram, escrevo a todos os diocesanos sobre um tema de grande importância para a nossa fé: a Eucaristia, ceia pascal e sacrifício da Nova Aliança.

Em que consiste a essência da Eucaristia " A partir dos textos bíblicos podemos depreender que foi a vontade de Jesus instituir o sacramento. Assim se expressa o Concílio Vaticano II "nosso Salvador, na última Ceia, na noite em que foi entregue, instituiu o Sacrifício Eucarístico do Seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar o Sacrifício da Cruz pelos séculos até Ele voltar, e para confiar assim a? Igreja, sua amada Esposa, o memorial de sua Morte e Ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal..."SC 47.

As narrações bíblicas mais antigas, contidas nos relatos de Paulo e Lucas, atestam esta verdade claríssimamente expressada pelo Concílio Vaticano II, revelando por testemunhas oculares o primitivo Kerigma apostólico. As palavras de Jesus mostram sua vontade salvifica, que se sacrifica em favor dos homens, tornando- se Mediador da Nova Aliança ao derramar seu sangue pela humanidade. Ao oferecer o pão sacramentado como seu "Corpo" dado em alimento, simboliza e representa, torna outra vez presente, esta imolação e sua entrega mediante o sangue derramado.

O momento em que celebra a Eucaristia na "Santa Missa" e justamente um acontecimento celebrativo com caráter de ceia, mas também de sacríficio-oferta. O Cristo Encarnado se torna corporalmente presente, não de forma estática mas atualizando (memória) sua eficácia redentora. Não se deve opor o sentido de ceia eucarística do sacrifico incruento, pois a ceia passa a ser presença sacramental de toda história salvífica de Jesus. Cristo continua em seu estado de Vítima e se torna nosso alimento: "Eis o pão dos anjos, que se torna alimento dos que caminham", já expressava um antigo hino eucarístico. Reforça este pensamento as palavras do Papa Francisco ao dizer: "o que vemos quando nos reunimos para celebrar a Eucaristia, a Missa, já intui o que vamos viver. O centro do espaço para a celebração é o altar, que é uma mesa coberta com uma toalha, e isso nos faz pensar em um banquete. Em cima da mesa há uma cruz, indicando que é oferecido no altar o sacrifício de Cristo" (Papa Francisco, catequese de quarta-feira).

Em Paulo podemos perceber uma base exegética importante à respeito da presença real de Jesus ao questionar a comunidade que não estava sabendo distinguir o alimento consagrado, através de um comportamento reprovável em relação aos membros mais fragilizados da comunidade no momento da partilha dos alimentos (I Cor 11,23-26). Alerta a comunidade para que saiba distinguir bem o alimento comum do consagrado ao recordar que este pão e vinho consagrados são o corpo de Jesus imolado e seu sangue derramado na cruz. De forma que se pode afirmar que "o caráter sacrificial da Eucaristia é já afirmado nesses dados da narração bíblica" ( Eucarisita, J. Betz)

A Igreja precisou esclarecer e reforçar ao longo dos séculos esta certeza da presença real e permanente de Cristo na Eucaristia, principalmente com o surgimento do protestantismo. O pão e vinho não são para nós, católicos, um símbolo da comunidade que participa de um banquete, mas uma presença sacramental e real. Sabemos que, pela história, após a paz constantinopolitana, a liturgia da missa foi sendo acrescida por um cerimonial mais rico, sobretudo nas igrejas patriarcais, mas desde a época apostólica a essencialidade do rito se manteve presente até os dias de hoje. A Eucaristia sempre se celebrou invocando o Espírito Santo para realizar a consagração e conceder uma recepção frutuosa aos participantes.

O Magistério da Igreja deste os tempos apostólicos, passando pelo riquíssimo período teológico dos Santos Padres, ainda hoje mantém uma doutrina ordinária sobre a Eucaristia que se expressa na Liturgia para que não caia na dúvida e divisão. Neste sentido, a liturgia tem um profundo significado de união doutrinária e não o contrário. A liturgia instrumentalizada pode levar a sérios problemas no plano da fé e da comunhão eclesial, conforme um adágio antigo: "A lei da oração estabelece a lei da Fé".

É missão do Bispo zelar para que sejam evitados abusos que provoquem confusão e dúvidas para o conjunto dos fiéis, esclarecendo as verdades da fé a fim de, por um lado para evitar os exageros de uma liturgia excessivamente formalista, por outro evitar a celebração que, em nome de uma criatividade desproporcional passa por cima dos ritos e orientações da Santa Igreja (cf. cân. 392 § 2). Evidentemente não podemos esquecer das reflexões sempre atuais de S. João Crisóstomo na Homilia sobre Mateus ao questionar excessivo enriquecimentos dos templos e liturgia em detrimento do próximo que bate a nossa porta com fome, sede e sofre com as injustiças deste mundo ao dizer "queres honrar o corpo de Cristo" Não o desprezes quando nu; não o honres aqui com vestes de seda e abandones fora no frio e na nudez o aflito" e, para evitar exageros ideológicos S. João Crisóstomo afirma: "digo isto, não para proibir que haja dádivas, mas que com elas e antes delas se deem esmolas. Porque ele aceita aquelas, porém, muito mais estas".

 A Igreja atenta a essa missão de olhar com predileção pelos pobres se tornou, ao longo dos séculos, a instituição de maior presença caritativa no mundo. O que não se pode aceitar é uma mentalidade distorcida que leve a empobrecer excessivamente a liturgia com a desculpa dos pobres, pois o mesmo Jesus vendo a reação de alguns discípulos ao criticar o raro perfume derramado sobre seus pés, alertou "pobres sempre havereis de ter" (Mt 26,7-14), pois sabia muito bem que, por detrás da preocupação falsa pelos pobres estava na verdade gananciosos usando da caridade para se aproveitar, como muitas vezes, verificamos por parte daqueles que tem o nome do pobre na boca, mas na prática, estão sedentos de privilégios e poder. Jesus ainda recorda quando criticou os fariseus que pagavam fielmente os dízimos mas se esqueciam da justiça, da misericórdia e da fidelidade, "no entanto, era necessário praticar estas coisas, sem contudo deixar de fazer aquelas outras coisas" (Lc 11,42). Jesus preza pelo equilíbrio, honestidade de intenções e ações concretas.

Desta forma não se deve afastar do que se pode reafirmar em relação  à essencialidade deste sacramento, isto é, caráter sacrificial da Eucaristia graças à "anamnesis" (memória) como se depreende de uma antiga fonte cristã chamada Didaqué. A Eucaristia é memória do sacrifício oferecido na cruz e nós somos chamados a fazer parte desta oblação de Cristo, como recorda Paulo ao falar que completa na sua própria carne o que falta à paixão de Cristo pela Igreja (Cl 1, 24).

Certamente o modo de falar de Paulo não nos deve pensar que o sacrifício de Cristo foi incompleto, mas que nós discípulos fazemos parte deste plano de salvação de Cristo, associando-nos ao Sacrifício único e definito d'Ele. Desta forma "o sacrifício de Cristo torna-se também o sacrifício dos membros do seu corpo. A vida dos fiéis, o seu louvor, o seu sofrimento, a sua oração, o seu trabalho unem-se aos de Cristo e à sua oblação total, adquirindo assim um novo valor. O sacrífico de Cristo presente sobre o altar proporciona a todas as gerações de cristãos a possibilidade de se unirem à sua oblação" (CIC 1368).

Santo Agostinho nos ajuda a compreender a importância deste alimento espiritual ao citar no livro das Confissões, VII, 10, 16 "Eu sou o alimento dos grandes. Cresce. Comer-me às. E não serás tu que me transformarás em ti, como ao alimento da tua carne, mas tu serás transformado em mim". Vemos, desta forma, que a Eucaristia não pode ser entendia com um subjetivo sinal, mas imagem real do corpo histórico de Jesus.

Acentuamos esta temática pelo fato de ao longo dos tempos terem surgido pensamentos que iam de encontro ao que a Igreja sempre defendeu. Temos no séc. XI o surgimento de conceitos que esvaziavam completamente o sacramento, reduzindo a um mero sinal, pura união espiritual de forma que pão e vinho não eram transubstanciação no Corpo e Sangue do Senhor. Foi necessário que o Concílio Lateranense IV (1215) definisse a doutrina, usando o termo técnico de transubstanciação para dizer que as aparências de pão e vinho continuam, mas a essência ou substância mudavam no Corpo e Sangue do Senhor.

Como citei acima, a Reforma Protestante reacendeu a problemática sobre a Eucaristia, questionando a transubstanciação e o cara?ter sacrifical da missa, apesar de que Lutero se posicionou em favor da presença real do corpo e do sangue de Cristo defendendo o "isto é o meu Corpo..." na Bíblia como uma realidade, porém refutou a doutrina da transubstanciação, preferindo o termo consubstanciação entendendo que a presença de Cristo só se dava no momento da celebração da ceia. Desta forma conservar e adorar a hóstia consagrada não tinha sentido para o protestantismo.

Para sanar qualquer dúvida neste aspecto, o Concilio de Trento resume a fé católica declarando: "Porque Cristo, nosso Redentor, disse que o que Ele oferecia sob a espécie do pão era verdadeiramente o seu corpo, sempre na Igreja se teve esta convicção que o sagrado Concílio de novo declara: pela consagração do pão e do vinho opera-se a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo nosso Senhor, e de toda substância do vinho na substância do seu sangue; esta mudança, a Igreja Católica chama, de modo conveniente e apropriado, transubstanciação" (CIC 1376)

Para reafirmar nossa fé inabalável na presença real de Jesus na Eucaristia é que valorizamos os momentos de adoração e a preservação zelosa nas espécies eucarísticas, inclusive, evitando a todo custo que se perca sequer um pequeno fragmento do Senhor no pão e vinho consagrados. Neste aspecto é que se deve sempre orientar os fiéis sobre as formas aprovadas para comungar, como expressa claramente a Instrução Geral do Missal Romano "segundo a praxe eclesial, o fiel aproxima-se normalmente da Eucaristia em forma processional, como dissemos, e comunga de pé, com devoção, ou então de joelhos, como estabelece a Conferência episcopal, recebendo o sacramento na boca ou, onde for permitido, nas mãos, como preferir (Papa Francisco, audiência geral 21 de março de 2018 ao citar IGMR 160-161). E para reforçar esta verdade de fé sobre a presença real de Cristo que se ordenam gestos e posições do corpo na Santa missa : "Ajoelhem-se, porém, durante da consagração, a não ser que, por motivo de saúde ou falta de espaço ou o grande número de presentes ou outras causas razoáveis não o permitam. Contudo, aqueles que não se ajoelham na consagração, façam inclinação profunda enquanto o sacerdote faz genuflexão após a consagração" IGMR no 43.

Os que comungam na mão, por exemplo, não deixem de verificar, com respeito e adoração, os fragmentos que porventura estiverem nas mãos para que não se percam. Neste sentido os Padres da Igreja procuraram corrigir e enfatizar a grande importância da recepção eucarística com profundo respeito e cuidado. Assim, os recém batizados do fim do século IV recebiam a norma de estender as duas mãos fazendo "com a esquerda um trono para a direita, pois esta devia receber o Rei" (5.a Catequese Mistagógica, n. 21, PG 33, 1125; S. João Crisóstomo, Hom. 47, PG 63, 898, etc.). Bom recordar que "a Sagrada Reserva (sacrário) era, ao princípio, destinada a guardar, de maneira digna, a Eucaristia, para poder ser levada aos doentes e ausentes, fora da missa".

Pelo aprofundamento da fé na presença real de Cristo na sua Eucaristia, a Igreja tomou consciência do sentido da adoração silenciosa do Senhor, presente sob as espécies eucarísticas" (CIC 1379). E estar "todos em silêncio prolongado diante do Senhor presente no seu Sacramento é uma das experiências mais autênticas do nosso ser Igreja, que acompanha de modo complementar a celebração da Eucaristia, ouvindo a Palavra de Deus, cantando, aproximando junto da ceia do Pão da Vida" Papa Bento XVI.

A Igreja Católica, portanto, com clareza defendia o que os protestantes negavam, valorizando as adorações eucarísticas. Obviamente não se pode esquecer que Cristo está presente no irmão e, portanto, quem com falsa piedade adora o Senhor na Eucaristia e maltrata o seu irmão está pisoteando no Cristo e o desrespeitando. Não se pode permitir uma piedade estéril, desfocada da realidade em que não é capaz de vislumbrar a realidade social que vivemos levando a uma indiferença perversa em relação aos pobres e aflitos deste mundo que batem a? nossa porta. Evidente que este amor aos necessitados e uma autêntica promoção social não nos leva a desmerecer o zelo para com nossas liturgias, o culto eucarístico e sua presença real como alimento a nos fortalecer na missão.

Nos dias atuais, com grande alegria temos os escritos dos papas que só nos encorajam neste amor a Jesus eucarístico e seus desdobramentos na vida espiritual que nos conduz a uma caridade ardente e atenção  para com os necessitados. Para isso sempre é bom retomar os textos do Concílio Vaticano II, e os riquíssimos documentos escritos dos Papas da era moderna sobre a Eucaristia. Neste sentido se faz oportuno retomar o que nos exorta Paulo VI no Credo do Povo de Deus no 26: "a única e indivisível existência de Cristo nosso Senhor glorioso no céu, não se multiplica mas se torna presente pelo Sacramento, nos vários lugares da terra, onde o Sacrifício Eucarístico é celebrado. E depois da celebração do Sacrifício, a mesma existência permanece presente no Santíssimo Sacramento, o qual no sacrário do autor é como o coração vivo de nossas igrejas. Por isso estamos obrigados por um dever certamente suavíssimo, a honrar e adorar, na Sagrada Hóstia que os nossos olhos vêem, ao próprio Verbo Encarnado que eles na?o podem ver, e que, sem ter deixado o céu, se tornou presente diante de nós".

Por sua vez, o Catecismo da Igreja Cato?lica, de grande utilidade para sanar quaisquer dúvidas doutrinárias, nos ensina que devemos considerar a Eucaristia "como ação de graças  e louvor ao Pai, como memorial sacrificial de Cristo e do Seu Corpo, como presença de Cristo pelo poder da Sua Palavra e do seu Espírito" (CIC 1358).

Com estas despretensiosas reflexões espero der ajudado a todos os fieis na recepção o frutuosa da Eucaristia, alimento espiritual, força na caminhada para melhor servir e amar.


Volta Redonda, 16 de setembro de 2019. + Luiz Henrique da Silva Brito


 Bispo Diocesano