É Advento!

Reflexões
02·Dezembro·2020


 

Ao aproximar-se o final do Ano Litúrgico, a Liturgia da Palavra nos apresenta textos que nos exortam à vigilância, e a tomarmos consciência daquilo que recitamos quando professamos nossa fé: o Senhor Jesus virá uma segunda vez para "julgar os vivos e os mortos". A temática da segunda volta de Cristo abre e encerra o ano litúrgico. Tanto no início do Advento quanto nas últimas semanas do tempo comum, somos recordados dessa realidade pela liturgia

Hoje, começamos o Advento. Ao contrário do que se pensa, o Advento não focaliza somente a preparação do Natal, pois a principal finalidade do Advento é preparar a vinda do Senhor. 

A Liturgia reflete conosco a preparação da 2ª vinda de Jesus Cristo. Dizendo de modo mais simples: o Advento tem a finalidade de preparar as vindas do Senhor; a 1ª vinda aconteceu no seu nascimento - que celebraremos como memória, na Liturgia do Natal, a menos de um mês - e a 2ª vinda do Senhor, que acontecerá no final dos tempos.

Por isso, antes de nos ocupar com a 1ª vinda, vamos nos ocupar com a 2ª vinda, quando o Senhor voltará em glória. É em base a isto que, neste Tempo do Advento, Jesus ensina na Liturgia a importância de viver na vigilância a cada dia da vida. 

Os primeiros dias do Advento não contêm uma Palavra para preparar o Natal, propriamente dito. O início é sempre iluminado pela luz da vigilância, virtude necessária para se viver de modo sóbrio em vista de não perder o encontro com o Senhor. 

Em tempo de crise, como esse que estamos passando, a promessa e a advertência à vigilância na espera do Senhor podem soar como convite à acomodação ou ao desinteresse. Mas, a Palavra de Deus, no Advento, sempre propõe três atitudes indicadoras de atividades vigilantes: a necessidade de mudanças, a penitência e a esperança. A pedagogia litúrgica nos convida sermos vigilantes, faz-nos reconhecer a condição humana da distração, e reconhecer, também, a Ação de Deus na vida do povo. Estes movimentos são percebidos em Isaías, o grande profeta do Advento, ao logo das primeiras semanas do Advento. 

Assim, a liturgia do Advento caracteriza-se como período de preparação, como se pode deduzir da própria palavra advento, que se origina do verbo latino advenire, que quer dizer chegar, é tempo de espera d'Aquele que há de vir. 

" O melhor da festa é esperar por ela" , diz um ditado popular. A espera e a preparação de um acontecimento são, do ponto de vista humano, tão importantes quanto o evento em si.

Seria oportuno se as equipes de liturgia, ao prepararem as celebrações deste tempo, pudessem colocar-se a seguinte questão: que importância damos ao tempo do Advento?

Vale aqui também lembrar o que escreve o saudoso liturgista Frei José Ariovaldo da Silva, na revista "Mundo e Missão", dezembro de 2004: "Atualmente, muitas comunidades eclesiais, influenciadas pela onda consumista por ocasião das festas natalinas e de final de ano, estão assumindo o costume de enfeitar suas igrejas já bem antes do Natal chegar. Em pleno tempo de Advento, que é um "tempo de piedosa e alegre expectativa", já ornamenta suas igrejas com flores, pisca-piscas, árvores de Natal e outros motivos natalinos, como se já fosse Natal. Posso dar uma sugestão? Não sejam tão apressadas. Não entrem na onda dos símbolos consumistas da nossa sociedade. Evitem enfeitar a igreja com motivos natalinos durante o Advento. Deixe o Advento ser Advento e o Natal ser Natal. Enfeites natalinos dentro da igreja, só quando Natal chegar. Então, a festa com certeza será melhor. Sobretudo se houver na comunidade uma boa preparação espiritual". Sobre a ornamentação com flores, convém, porém, com moderação, de modo que não antecipe a plena alegria do Natal. 

É preciso tomar o cuidado de não abortar o Advento ou de celebrá-lo superficialmente. Este cuidado nos levará a não antecipar o Natal, seja fazendo celebrações natalinas antes do previsto, seja usando ritos próprios da festa. Se cantarmos "Noite Feliz" no dia 15 de dezembro, por exemplo, o que iremos cantar na noite do dia 24 para 25?

Não se canta no Advento o "Glória", mas, diferentemente do tempo da Quaresma, pode-se cantar o Aleluia. Toda a liturgia do Advento é apelo de expectativa vigilante e alegre à esperança, à conversão e à pobreza.  Cantem e toquem músicas que "liguem" realmente com a ação litúrgica que se realiza e com o momento (e época) da celebração; não é qualquer música, só porque é "bonita?" Como diz o Concílio, deve ser música que esteja "intimamente ligada com a ação que se realiza". E ainda, dentro do princípio de que a música deve estar intimamente ligada à ação litúrgica, quando esta termina, cessa também a música.

A Exortação Apostólica Marialis Cultus de Paulo VI afirma que a reforma litúrgica, com a revisão do calendário geral, "permitiu inserir, de modo mais orgânico e com uma ligação mais estreita, a memória de Nossa Senhora no ciclo anual dos mistérios de Cristo" (n.2). Sendo assim, é fácil constatar que o único período do Ano Litúrgico no qual Maria é lembrada e inserida de modo claro na Liturgia da Missa é no Tempo do Advento e do Natal. O Advento é, por si, o Tempo de Mariaa gravidez de Maria foi um advento plenificado.  Mas, o Advento, principalmente a partir do dia 17 de dezembro, insere Maria na vivência e na celebração do Mistério Pascal, com destaque há duas festas marianas do mês de dezembro: dia 8, Solenidade da Imaculada Conceição, e dia 12, a festa de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira principal da América Latina.

Um símbolo usado em nossas assembleias durante este tempo é a coroa do Advento, que faz parte da antiga tradição católica. Todavia, não se conhecem as suas verdadeiras origens. Seu simbolismo é muito belo. A coroa é feita de ramos verdes de plantas que no inverno europeu não perdem as folhas, significando a continuidade da vida e da esperança. A forma circular da coroa simboliza a eternidade de Deus, que não possui início nem fim, a imortalidade do cristão e a vida eterna em Cristo.

As quatro velas representam as quatro semanas do Advento. Há uma tradição muito bela, segundo a qual cada semana representa mil anos; as velas representam, portanto, os quatro mil anos que vão de Adão e Eva até o nascimento de Jesus, nosso Salvador. A cor roxa desse tempo significa a vigilância na busca da conversão. 

A progressiva e pedagógica iluminação da vela da coroa significa a espera de que marcaram a primeira vinda do Cristo, e a nossa esperança e desejo da sua segunda vinda para salvar, julgando os vivos e os mortos.

Estejamos bem preparados para vinda do Senhor, onde lá iremos adorá-Lo e apresentar nossa perene oblação, tal como fizeram os Reis Magos.

 

Novembro de 2020 

 

Desejo um frutuoso Advento

 

Pe. Alex Soares